Grande parte dos pais já deu uma (ou várias) palmadas aos filhos. Se isso aconteceu (ou acontece) contigo, este texto não tem a intenção de julgar ninguém. Parto do princípio que fizeste o melhor que pudeste com o conhecimento e recursos que tinhas à tua disposição, no momento. A intenção deste texto é apenas a de abrir espaço para a reflexão e para o despertar da consciência em volta do que realmente é importante quando falamos em educar ou em ser pai e mãe. Para mim, a solução está na relação!! Se queres saber mais, convido-te a continuar a ler… 

A palmada é muitas vezes confundida com disciplina e é considerada muitas vezes indispensável a uma “boa educação”. Mas a investigação feita nas últimas décadas veio provar que esta correlação é não só abusiva como contraproducente. Ou seja, o recurso ao castigo físico (inclui-se aqui a palmada) em pouco contribui para a disciplina, acentuando o tipo de comportamento que se pretende “controlar”. 

“O castigo pode travar um comportamento, ou não, mas de certeza que não ensina uma criança a substituir comportamento impróprio por comportamento mais produtivo.” (Shefali Tsabary)

Porquê? Porque para além de ferir a integridade física e psicológica da criança (que tem o mesmo direito à integridade do que outro qualquer ser humano), não lhe ensina nada sobre emoções e auto-regulação das mesmas, não promove um vínculo seguro entre pais e filhos e provoca sérios danos à auto-estima da criança. 

Lembras-te das palmadas que recebeste? Convido-te a fechar os olhos e regressar a essas memórias? O que sentiste nessa altura? Amor dos teus pais? Pensaste: “Os meus pais gostam tanto de mim que me estão a ensinar o que está certo, batendo-me.”? Podes abrir os olhos…

O que se constrói ao longo da infância são as bases para uma auto-estima saudável. Não é o comportamento que se constrói… É a relação entre pais e filhos! O comportamento é apenas um meio de comunicação de uma necessidade. Sempre que uma necessidade não é atendida na criança, ela manifesta-o através do comportamento. Se mantemos o foco no comportamento e na vontade de o controlar ou corrigir, estamos a perder uma boa oportunidade de identificar as razões emocionais desse comportamento, conhecer melhor a nossa criança, criar conexão com ela e contribuir para a construção de uma auto-estima saudável. Sabias que uma criança com uma auto-estima saudável tem probabilidades muito baixas de ser vítima de bullying ou agressor?

Quanto aos desafios que os adolescentes colocam aos pais… achas que isso acontece porque faltou uma educação baseada no respeito, onde é claramente comunicado à criança “quem manda” (sendo que, a essa figura de autoridade é permitido bater)? O que achas que acontece quando esta criança cresce e já pode ser ela a “mandar”? 

Elizabeth Gershoff fez um extenso estudo sobre o uso da palmada publicado no “Journal of Family Psychology” e identificou que esse tipo de experiência na infância está ligado a “mais agressão, mais atitudes antissociais e a problemas cognitivos e de saúde mental”, além de constituir um fator de risco para abusos mais graves. 

É por isso importante dar espaço, desde cedo, aos nossos filhos para sentirem todas as emoções, sendo que a nossa responsabilidade não é a de conter essas emoções, mas sim a de desvendá-las e guiar os nossos filhos no sentido de encontrar formas respeitosas de as expressar.

Talvez agora estejas a pensar: “Então o que faço?”. Fica tranquilo, porque todos os pais questionam isso… Em primeiro lugar, define a tua intenção! Responder a perguntas como: “Que pai/mãe quero ser na relação com o meu filho?” ou “Como quero ser recordado pelo meu filho daqui a vinte anos?” podem ajudar a definir intenções. Por outro lado, reflete se a forma como te relacionas com o teu filho:

  • tem como base o respeito pelas suas emoções, necessidades e limites pessoais;
  • é autêntica (ou se pelo contrário é baseada em crenças, padrões de educação tradicional, pela cultura ou pelas normas sociais);
  • respeita a sua integridade física e psicológica;
  • promove a responsabilidade pessoal (a tua e a dele).

Quando o dito “diálogo” falha com a criança, a solução não está em prosseguir para o castigo moral seguido do castigo físico. Segundo Marshall Rosenberg (conceituado psicólogo americano que dedicou muitos anos da sua vida a estudar a origem da violência), quando o ato de educar tem como base o “jogo de quem tem razão”…

a punição surge para as pessoas aprenderem a odiarem-se pelo que estão a fazer e isto é uma forma diabólica de educar as pessoas”.

Muitos pais não têm conhecimento acerca do desenvolvimento da criança e do seu cérebro. A capacidade de auto-regular as emoções e por conseguinte o comportamento é algo que se constrói no cérebro até aos 25 anos e os pais e agentes educativos têm um papel fundamental neste processo. Para uma criança aprender a regular-se, precisa de um adulto que saiba regular as suas próprias emoções. Gritar-lhe ou bater-lhe não ensina a criança a controlar-se, porque é em si um ato de descontrolo. Enquanto pais, podemos tomar consciência de que não estamos a estabelecer a relação que queremos com os nossos filhos e podemos pedir ajuda porque enquanto não nos compreendermos a nós próprios e aos nossos filhos, não vamos conseguir criar relações felizes e saudáveis.

E não, não temos de educar como há 50 anos atrás, porque se assim fosse então teríamos de continuar a viver como no século passado e não é o que fazemos, pois não? Evoluímos! E isso é tão bom!

Se “bater num adulto é considerado agressão, num animal é considerado crueldade, porque é que numa criança é considerado educação?”

Espero que este texto te tenha ajudado a refletir, a tornar consciente algumas ações e a abrir novas possibilidades. Estou aqui para te ajudar nesta caminhada, se precisares !! 

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Obrigada!

Zulima