Andamos muito preocupados com a violência. E ela continua a acontecer… E continuamos preocupados com a forma como vão ser castigados os agressores. E tudo bem. E depois? Para quem está, como eu, focado em questões de fundo, facilmente direcciona a sua atenção para a forma como podemos contribuir para uma mudança no mundo. E essa mudança passa inevitavelmente pela educação. E tu, PAI, tens um papel muito importante neste mundo, sabias?

Qual será a origem da violência? Porque é que algumas crianças batem e mordem com regularidade? Como é que bebés puros se transformam em crianças com condutas anti-sociais, em adolescentes com comportamentos desviantes e em adultos criminosos? 

De acordo com os estudos na área da psicologia do desenvolvimento e em alinhamento com os pressupostos da abordagem consciente da parentalidade, há dois fatores que influenciam significativamente o fenómeno da violência. 

Primeiro, o facto da própria pessoa ter sido magoada na sua infância. Uma criança que recebeu palmadas (ou outro tipo menos subtil de violência física), ou foi ameaçada de qualquer forma, estará mais predisposta a tornar-se violenta também. Por sua vez, o abuso sexual e a negligência emocional deixam fortes marcas que poderão conduzir à violência. Toda a acumulação de traumas e de stress físico e emocional podem conduzir a comportamentos violentos na criança, no jovem e no futuro adulto. Todas as angústias, as frustrações e as mágoas vividas na infância podem acumular-se de tal ordem e conduzir a criança a bater, morder ou a usar qualquer outro tipo de violência para com os outros, por ter sido essa a forma de relacionamento privilegiada que aprendeu. 

Segundo, mas não menos importante, o facto da pessoa, na sua infância, não ter tido a oportunidade de se libertar das emoções causadas pelas mágoas e feridas. Ou seja, a criança não pude expressar as suas emoções mais intensas e desconfortáveis, sendo estas anestesiadas e recalcadas. A tendência inconsciente será a de expressar-se com violência para com os outros.  No fundo, parece que ser vítima de violência ou de outras experiências adversas na infância tem um impacto ainda mais negativo quando não foi dado à criança espaço para que as emoções fossem vividas, exprimidas e acolhidas no momento presente. A violência para consigo mesmo ou para com os outros parece um caminho quase inevitável. Trata-se de uma expressão inconsciente da raiva e do medo que surge a partir de um contexto onde é perigoso expressar e libertar-se das emoções fortes.

A estes dois fatores acrescenta-se o facto do uso da punição física e da comunicação violenta ser “tolerado” e reforçado pela nossa sociedade e cultura, e muitas vezes associado a um comportamento masculino considerado ainda por muitos “apropriado”. Ainda vemos a ser proposto às crianças desportos “masculinos” violentos, programas de televisão violentos, filmes e videojogos com protagonistas violentos, na grande maioria das vezes do género masculino. Oferece-se aos rapazes figuras de vilões, pistolas e outras armas. Os livros contam histórias de guerras nas quais os homens predominam e são honrados como sendo os grandes conquistadores. Muitos pais ficam orgulhosos dos filhos por estes terem retribuído uma provocação na escola com um soco e ficam preocupados quando o filho recusa “defender-se” fisicamente. 

A partir do momento em que contribuímos para a manutenção da crença de que os homens têm de ser fortes e não podem chorar, não me surpreende que também sejam os homens a cometer mais crimes, comparativamente com as mulheres. 

Para prevenir a violência, em primeiro lugar temos de parar de a usar com as nossas crianças. Isto significa que a bofetada, a palmada (e por aí fora) assim como a exposição a qualquer tipo de violência (na vida real, na televisão ou nos videojogos) devem ser banidas de vez!  Temos de alterar as mensagens que veiculamos às crianças acerca da violência, começando por esperar dos rapazes o mesmo que esperamos das raparigas, um comportamento não-violento! Mais ainda, os rapazes, tal como as raparigas, devem ter direito a sentir e a expressar todas as emoções, inclusive a tristeza e a raiva! Caso contrário, vão internalizar as suas frustrações, ressentimentos, fúrias, mágoas e ficam em risco de as externalizarem apenas através da violência exercida contra eles próprios ou contra os outros. 

Uma grande parte da dor emocional sentida na infância é inerente ao seu crescimento, desenvolvimento e aprendizagem. As crianças vivem (e é importante que vivam) a experiência da dor e do stress, mesmo com os pais e educadores mais atentos e conscientes! Mas a importância reside na permissão que damos às crianças para que as emoções aconteçam, e na forma como exercemos a nossa parentalidade de modo a ensinar, modelar e estimular a fantástica competência de auto-regulação emocional. 

Tu, PAI, tens um papel mesmo importante na educação do teu filho e na luta contra a violência. Não achas? 

“Eu sou contra a violência porque parece fazer bem, mas o bem só é temporário. O mal que faz é que é permanente.” (Mahatma Gandhi)

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Obrigada!

Zulima