Muitas mães vivem um dia-a-dia frenético (eu sei que alguns pais também mas ainda são maioritariamente as mães). Têm uma lista infinita de coisas para fazer, sempre as mesmas, pouco reconhecidas, e das quais não se podem demitir (ou será que podem?). 

Mas se ser mãe é tão maravilhoso, o que é que as cansa tanto?

Precisamente a impossibilidade de se poderem queixar de todas as coisas que não são assim tão maravilhosas. Olha só: 

– Muito do trabalho da mãe é repetitivo e nunca acaba. Todos os dias faz o mesmo que fez no dia anterior. 

– É difícil fazer planos porque há sempre uma fralda suja, um vómito, uma virose, uma birra ou outra coisa qualquer para alterar tudo. 

– A sensação de não ter feito nada é grande (as tarefas associadas à maternidade são tantas que de repente parece que não há tempo para nós, para a carreira, para o casal, para os amigos, para a família);

– A mãe não sente o seu trabalho reconhecido. Muitas pessoas o consideram inato e portanto não é visto;

– Parece que a mãe não pode falhar. Há olhares por todo o lado, mil e uma opiniões, dezenas de especialistas com visões diferentes e a mãe sente que tem de ser perfeita;

– Pouca gente cuida da mãe. Ela está sozinha. As pessoas querem ouvir dela que está feliz e radiante com o seu bebé/criança, não querem ouvir que às vezes ela está farta de tudo.

E o pai? Pois o pai, muitas vezes é aquele a quem a mãe não conta nada, finge estar tudo bem, até porque “mãe que é mãe dá conta do recado e continua linda e amorosa na mesma”. Outra vezes, não dá mesmo para disfarçar, e o pai é o autêntico saco de boxe que mal entra em casa recebe todas as lamentações da mãe mas não as sabe acolher. 

Uma mãe tem mesmo muita carga de trabalho! E será que isso afeta o amor que sente pelo filho? 

Sim! Afeta na medida que afeta a qualidade da relação que tem com ele. Afeta porque a mãe não se sente reconhecida, não se sente apoiada. Se um pai muda uma fralda é logo objeto de louvor e admiração. Se a mãe o faz, ninguém repara. E com o resto é igual. Ao fim de algum tempo, uma mãe entra em burnout (=esgotamento). 

Este estado físico e mental de esgotamento tem três fases e é mesmo importante estarmos atentos e conscientes a elas:

1) A energia acaba-se. Precisou tanto de dar e de se adaptar constantemente a novos desafios que ficou “sem água no poço”.

2) Se não encontrar apoio e suporte, se ela se mantiver em stress constante, ela acaba por se distanciar do filho e viver em piloto automático.

3) A permanência das fases anteriores conduz à depressão. Nesta fase surgem a irritação, os gritos, os castigos e tudo aquilo que a mãe não quer fazer. A auto-estima da mãe cai, a presença afetiva para o filho evapora-se e o casal começa a distanciar-se. 

Os pais podem viver exactamente o mesmo que as mães, quando são eles que estão na gestão do projeto de família. 

Uma mãe que entra em esgotamento não é fraca nem incompetente. Na maioria das vezes, acaba medicada. Ok. E o que muda à sua volta? Pois é precisamente isso que pode ser repensado (delegar tarefas – eventualmente pagar esse serviço; convidar o pai na gestão da casa; repensar as rotinas; fazer alterações no horário de trabalho ou até mesmo na carreira; procurar ajuda; etc.). 

As mães a tempo inteiro encontram-se mais em risco para o desenvolvimento de uma depressão. Pode ajudar muito: voltar ao trabalho e investir numa carreira na qual se sentem reconhecidas, fazer exercício físico, ter alguns momentos a sós com o parceiro, entre outras formas de satisfazer as suas necessidades emocionais. 

Uma mãe que sente as suas emoções reprimidas, que não se sente reconhecida, que se vai afastando emocionalmente e afetivamente do filho e dos outros ao seu redor, que se sente cansada e frustrada… tem todas as condições reunidas para ser a sua pior versão. 

Se te sentes assim, fala com alguém sobre isso. Fala com o teu parceiro ou com outra pessoa da tua confiança. Fala, sem vergonha e sem medo. Todas as mães, em maior ou menor grau, já sentiram o mesmo. Eu já tive momentos na vivência da minha maternidade em que senti isso tudo. Sempre tive o acolhimento e a escuta ativa do meu marido. Aprendi a ter muita compaixão para com as outras mães. E é isso que nos une: a vulnerabilidade e a compaixão. 

Não há nada de errado contigo. Ser mãe é mesmo difícil “à brava” (como diz uma querida amiga minha) e também é maravilhoso!

Se achares que este texto pode ajudar outras mães (ou pais), partilha-o 😉 

Um xi-coração!

Zulima